quarta-feira, janeiro 04, 2006

Ontem, de madrugada:

Vaivém de desejo


Lá estou eu, sempre a querer,
como se eu não me chegasse...

A igreja quer burburinhos:
rezas, súplicas, meninos
a chorar... por isso lhe tocam os sinos.

O ovo quer pintainhos.
Se a galinha o vemos a chocar,
é porque ele precisa muito de rachar.

O jardim quer abelhinhas
a voar. Musical, deixa-se florir
de cores cantantes para o ar ouvir.

Basta, basta! Tudo leva a crer
que com o desejo tudo tem um enlace.

O que me leva então, plantas minhas,
a vos regar com sumos de cansaço?
Que árvore frondosa e invísivel tem um laço

com este meu voo tão surdo aos galinheiros
que se chilreiam destinos para onde quer que eu vá,
polinizando em mim o nascimento de um "Bah"?

Na gema da aflição, busco isqueiros
que religiosos me alumiem o prédio
cuja construção tilinte contra o tédio.

Mas, nas suas paredes, leio a frase:
"lá estou eu, sempre a querer"...