Ontem, de madrugada:
Vaivém de desejo
Lá estou eu, sempre a querer,
como se eu não me chegasse...
A igreja quer burburinhos:
rezas, súplicas, meninos
a chorar... por isso lhe tocam os sinos.
O ovo quer pintainhos.
Se a galinha o vemos a chocar,
é porque ele precisa muito de rachar.
O jardim quer abelhinhas
a voar. Musical, deixa-se florir
de cores cantantes para o ar ouvir.
Basta, basta! Tudo leva a crer
que com o desejo tudo tem um enlace.
O que me leva então, plantas minhas,
a vos regar com sumos de cansaço?
Que árvore frondosa e invísivel tem um laço
com este meu voo tão surdo aos galinheiros
que se chilreiam destinos para onde quer que eu vá,
polinizando em mim o nascimento de um "Bah"?
Na gema da aflição, busco isqueiros
que religiosos me alumiem o prédio
cuja construção tilinte contra o tédio.
Mas, nas suas paredes, leio a frase:
"lá estou eu, sempre a querer"...